Democratas aparecem em vantagem nas projeções para a Câmara e ameaçam a maioria republicana no Senado; resultado será um teste de popularidade para o presidente.
Os eleitores dos Estados Unidos vão às urnas nesta terça-feira (3) em uma eleição que poderá impor um revés político ao presidente Donald Trump. Embora não esteja entre os candidatos, o republicano terá sua força no Congresso colocada à prova nas chamadas eleições de meio de mandato, as midterms. Uma eventual perda de maioria parlamentar poderá dificultar a aprovação de propostas do governo e ampliar a capacidade de fiscalização da oposição sobre a Casa Branca.
Mais de 50 milhões de americanos já votaram antecipadamente. Nesta terça, serão definidas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado e os governos de 36 estados.
O cenário é desfavorável aos republicanos, que atualmente controlam as duas Casas do Congresso. Na Câmara, o partido ocupa 218 cadeiras, contra 214 dos democratas, além de um parlamentar independente e duas vagas desocupadas. No Senado, os aliados de Trump têm 53 dos 100 assentos.
As projeções eleitorais indicam que os democratas têm boas chances de recuperar o controle da Câmara. A disputa pelo Senado também apresenta riscos para os republicanos, embora seja considerada mais equilibrada.
Perda de maioria pode limitar agenda de Trump
Uma mudança na composição do Congresso teria consequências diretas para a segunda metade do mandato presidencial. Caso os democratas conquistem a maioria em uma ou nas duas Casas, Trump poderá encontrar mais dificuldades para aprovar projetos, implementar medidas de governo e avançar com sua agenda legislativa.
Além disso, a oposição teria maior poder para convocar investigações, promover audiências e intensificar a fiscalização de ações do Executivo.
Na Câmara dos Representantes, o centro de estudos políticos da Universidade da Virgínia estimou, em outubro, uma possível composição de 223 deputados democratas e 200 republicanos, com outras 12 disputas ainda indefinidas.
A plataforma Race to the White House apresentou uma projeção ainda mais favorável aos democratas: 234 cadeiras para a oposição e 201 para os republicanos. A estimativa atribuiu 88,9% de probabilidade de vitória democrata na disputa pelo controle da Casa.
No Senado, a mesma plataforma calculou em 72,9% a possibilidade de os democratas conquistarem a maioria, com uma composição estimada entre 52 e 53 parlamentares.
Para controlar o Senado sem depender de votos republicanos, os democratas precisam alcançar 51 cadeiras. Os republicanos, por sua vez, podem manter a maioria com 50 senadores, já que o vice-presidente J.D. Vance tem o direito de desempatar votações.
Baixa aprovação aumenta pressão sobre o presidente
A eleição também funciona como um termômetro da popularidade de Trump. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (2) apontou que apenas 32% dos americanos aprovam sua administração, índice próximo do menor registrado durante o atual mandato.
O desgaste pode prejudicar candidatos republicanos, especialmente nos estados onde a disputa é mais apertada.
Historicamente, as eleições de meio de mandato representam uma avaliação do governo em exercício. Mesmo sem disputar diretamente os cargos, o presidente costuma influenciar o resultado, e seu partido frequentemente enfrenta dificuldades para manter a força parlamentar.
Disputa envolve também governos estaduais e bilhões de dólares
Além das vagas no Congresso, os americanos escolherão governadores em 36 estados e representantes de três territórios: Guam, Ilhas Virgens Americanas e Ilhas Marianas do Norte.
Entre as disputas estaduais consideradas mais equilibradas estão as do Alasca, Geórgia, Ohio, Oregon, Nevada e Wisconsin. Os resultados também poderão influenciar a organização dos partidos para a eleição presidencial de 2028.
A campanha eleitoral movimentou mais de US$ 15 bilhões, aproximadamente R$ 75 bilhões, segundo dados da Comissão Eleitoral Federal reunidos pela emissora NPR.
Embora os democratas tenham superado os republicanos na arrecadação direta em 27 das 35 disputas pelo Senado, organizações externas alinhadas ao partido de Trump também dispõem de recursos expressivos. Grupos ligados aos republicanos reuniam cerca de US$ 1 bilhão, enquanto organizações semelhantes associadas aos democratas tinham aproximadamente US$ 579 milhões.
Entre os grandes financiadores está o empresário Elon Musk, que destinou US$ 158 milhões ao Senate Leadership Fund, organização que apoia candidatos republicanos ao Senado. Trump também anunciou a intenção de direcionar mais de US$ 400 milhões para fortalecer candidaturas de seu partido.
Regras eleitorais também estão em disputa
Outro foco de tensão envolve as regras de votação e o redesenho dos distritos eleitorais. Trump defende exigências mais rigorosas para o voto pelo correio, sob o argumento de combater irregularidades. Parte das medidas anunciadas pelo presidente, entretanto, foi contestada judicialmente.
Republicanos e democratas também disputam mudanças nos limites dos distritos eleitorais, que podem favorecer determinadas legendas na eleição de deputados. No Texas, alterações aprovadas em 2025 ampliaram as possibilidades eleitorais dos republicanos. A Califórnia adotou medidas em sentido contrário, com potencial benefício para os democratas.
Resultado pode redefinir a segunda metade do mandato
Os primeiros resultados devem aparecer na noite desta terça-feira, após o encerramento da votação em diferentes regiões dos Estados Unidos. A definição do controle do Congresso, porém, poderá levar dias, especialmente em disputas apertadas e devido à contagem de cédulas enviadas pelo correio.
Os parlamentares eleitos assumirão os mandatos em janeiro de 2027. Se os democratas conquistarem a maioria em uma ou nas duas Casas, Trump poderá enfrentar um cenário político mais adverso até o fim de seu mandato, previsto para janeiro de 2029.
Mais do que renovar o Congresso, a eleição representa uma oportunidade para os eleitores demonstrarem apoio ou insatisfação com o atual governo. O resultado poderá determinar o quanto o presidente conseguirá avançar com suas propostas nos próximos dois anos.

